O Filho Bastardo Cresceu

Por Raul Canal, presidente da AAAPV (Agência de Autorregulamentação das Associações de Proteção Veicular e Patrimonial)

 

No amor, na política e nos negócios não existe espaço vago. Não há vácuo. Se você não ocupar o espaço, alguém haverá de ocupá-lo. Essa é uma das grandes verdades que os políticos, os amantes e os homens de negócios precisam compreender.

Ao longo das cinco últimas décadas, o mercado segurador brasileiro desprezou, ignorou e, por que não dizer, marginalizou uma fatia considerável e nada desprezível do mercado nacional. Declinou vários riscos que, a seu ver, não eram bons por serem altamente vulneráveis e que, justamente por tal vulnerabilidade, necessitam se proteger. Embora o objeto do negócio das seguradoras seja o risco, ela escolhe os que quer cobrir. E só aceita ou assume os riscos bons. Os altos riscos não lhes interessam.

Como o mercado convencional rejeitou tais riscos e o poder regulatório do Estado se omitiu, o mercado “marginal” se organizou. E o fez ante a inevitável necessidade de se autoproteger, de mitigar a sua vulnerabilidade frente aos danos emergentes a que estão expostos seus bens patrimoniais e socializar eventuais prejuízos decorrentes da concretude e realização de tais riscos.

Assim, surgiram no Brasil as associações e cooperativas de socorros mútuos, as quais, ante a falta de regulamentação e legislação específica, foram se organizando no “jeitinho brasileiro”, cada qual seguindo as diretrizes, parâmetros e paradigmas de seus idealizadores, corpo associativo e dirigentes. Embora sem legislação adequada e operando quase à semelhança do rústico transportador de abóboras (“é no andar da carreta que as abóboras se ajeitam”), tal mercado se consolidou. E cresceu tanto a ponto de assustar o mercado convencional e estabelecido de forma cartelizada (temos apenas 118 seguradoras operando no Brasil, ao passo que na vizinha pobre, Argentina, temos 1.800) e avessa à concorrência competitiva.

O mercado associativista e cooperativista de proteção veicular e patrimonial, que pratica no Brasil o que chamamos de socorros mútuos, que pouco se diferencia das mutuais e seguros cooperativos praticados em todos os países civilizados, representa um filho bastardo do mercado segurador. Esse filho bastardo no princípio não incomodava e nem dava trabalho, mas agora cresceu e não dá mais para escondê-lo da sociedade. Ele quer ser reconhecido e quer ser formalmente apresentado. Não reclama alimentos, verbas pensionais e nem tampouco direitos hereditários. Quer apenas ser reconhecido e viver livremente. O mercado convencional até reconhece a paternidade, todavia se nega a batizar o filho, arrepende-se por não o ter abortado e ainda tenta, tardiamente, um “gioscídio”.

O caminho, todavia, é irreversível. Quem se acostumou com o ótimo, não se conforta mais com bom. Esse mercado, criado às margens do convencional, mostrou-se muito mais efetivo, muito mais pragmático, muito mais eficiente, enfim, entregando, na forma de proteção, um produto muito melhor que o mercado segurador tem apresentado na forma de seguro. A associação e a cooperativa ficam muito mais próximas de seus associados e cooperados. Muitas vezes na mesma cidade ou no mesmo bairro. O associado/cooperado tem acesso direto ao presidente e demais dirigentes da cooperativa ou associação. Enquanto que nas seguradoras comerciais, ele mal consegue falar com uma voz eletrônica ou com operador de telemarketing que só consegue ler um script com uma “receita de bolo”. Os critérios para admissão de associados ou cooperados são mais flexíveis que os critérios para aceitação de riscos do mercado segurador. Os requisitos para deferimento de benefícios são muito mais elásticos, sociais, solidários e humanizados que aqueles para deferimento de coberturas de sinistros das seguradoras.

No mercado segurador comercial, o que importa é o valor dos prêmios arrecadados. No associativismo e no cooperativismo, o que importa é o número de pessoas protegidas e alcançadas pelos benefícios. A seguradora calcula: “quanto eu vou arrecadar?”, enquanto a associação e a cooperativa calculam: “quantos eu vou proteger e beneficiar?”.

Quem experimentou o Uber não quer mais voltar para o taxi. O Uber gera hoje, no Brasil, 500 mil empregos diretos e atende a 17 milhões de brasileiros. Todavia, esses 17 milhões de consumidores não foram subtraídos do mercado dos taxistas. Certamente, mais de 15 milhões (85%) não consumiam serviços de táxi: usavam ônibus, metrô ou seu próprio automóvel, mas, com a facilidade e o preço mais competitivo do Uber, mudaram os seus hábitos de mobilidade urbana.

No mercado de proteção veicular, estima-se hoje cerca de 2,5 milhões de automóveis nos sistemas de cooperativas ou associações. Isso representa apenas 2,9% do total da frota brasileira. E 90% desses automóveis não foram subtraídos do seguro comercial, mas fogem do perfil ideal das seguradoras e, portanto, são alijados do mercado, marginalizados pelo seguro tradicional.

O filho não representa ameaça para o pai. Não compete com ele. Mas conquistou e quer preservar o seu espaço.

Assim como ocorre com os aplicativos de mobilidade urbana, o associativismo e o cooperativismo de socorros mútuos caíram na graça popular e atendem satisfatoriamente as necessidades de seus associados e cooperados. Ninguém, nem o Estado, pode lhes furtar esse direito de se autoorganizarem para se autoprogerem mutuamente e de forma solidária.

O filho bastardo cresceu, mercado segurador. Não adianta mais escondê-lo da sociedade. Deixe que ele cresça e cumpra os seus desígnios.

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